sábado, 18 de outubro de 2014

Sobre finalmente conseguir demonstrar (pelo menos um pouquinho)

Eleições e uma longa greve podem nos enrijecer, e o medo do futuro nos paralisar.
A vida começou a correr em um ritmo mais pesado e cruel, para todos nós, de diferentes formas. Talvez por isso e tantas razões das quais eu talvez nunca me de conta, até hoje não tinha conseguido perceber que os nossos dias enquanto estudantes de psicologia da UNESP Assis estão
prestes a acabar. E eu ainda não tinha chorado, até hoje.
Vivi, até então, como se ignorasse o fato de este ser o último ano, estes serem os últimos meses de nossas vidas nessa cidade. Acordava e dormia como se esta rotina fosse se repetir indefinidamente pelo transcorrer das horas, dos anos. Mas é que hoje tiramos as fotos que vão para o album da nossa formatura.
Formatura.
Então eu vi todos os meus amigos em uma foto só, vi antigos amigos comentando em fotos, familiares emocionados e parabenizações, senti saudade, senti a rapidez com que o tempo pareceu ter passado. A vida me escancarando  o que até agora não tinha conseguido, ou talvez não quisesse sentir.
Hoje, por um instante,mesmo que não tenhamos percebido, paramos para nos celebrar. Celebramos termos todos chegado até aqui, e o caminho muitas vezes não foi fácil. Outras tantas, foi absolutamente delicioso.
E hoje pude olhar para os meus colegas de classe com amor e reconhecimento.  Todos nós vivemos, sobrevivemos e reaprendemos a viver em Assis. Somos todos diferentes, mas  talvez partilhemos de um mesmo  sentimento de nostalgia, saudade, angústia, carinho e carinho, agradecimento e alegria. Posso jurar que todos estávamos na mais plena sintonia ao jogamos nossos chapéus para o alto. E essa sensação foi como um pequeno milagre.
Hoje me permiti sentir tudo isso e chorei, e lembrei, e fingi que não sentia, e fiz piadas para disfarçar, até birra fiz.
Mas agora esse sentimento me consome por inteira. E é doce e amargo ao mesmo tempo, como tantos sentimentos já experimentados ao longo destes 5 anos.Agradecimento e paz, e uma ligeira vontade de fazer tudo de novo.
 Que venham os próximos dias! prometo vivê-los, agora sim, como os últimos deste intenso e definitivo encontro.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Para mais um adeus

Despedida
Despida
De fala
De ar
De sono 

Vazio que resta, dias adentro, anos a fio. 



(Puta que o pariu, como isso dói!)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Pedaço

Era riso, sorriso, abraço, lençol, travesseiro, carinho
Era briga, grito, gargalhada, sermão, peteleco
Era enfermeira, cozinheira, arrumadeira, cabeleireira, 
Era arroz, feijão e bobó de camarão
Era televisão, bossa nova e poesia (mas disso acho que ela nem sabia)
Era conselho, consolo, colo, conforto
Era abrigo
Era mimo 

Perfume, brincão, jaqueta de couro, cabelo bem cortado
Olhar esverdeado
Era a esperança, a confiança e o amor que nem cabe dentro do peito
Dona do nosso futuro mais que perfeito

Era vento no litoral
Beleza
Vontade

Agora é saudade
Ainda é vontade daquilo que não foi
Virou lembrança que vai com o vento
Solidão madrugada a dentro

Agora é lacuna
É saudade
É abismo
É fotografia
É Sonho

É Falta 
É a falta que sobra dentro de mim.
 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Miudezas.

Sigo tragando saudades
lembrando sorrisos
construindo versos
pra tentar expressar aquilo
aquilo que tenho medo
medo de esquecer
Sigo querendo
desse jeito que parece
que só eu sei querer
Sigo querendo que tudo volte
que tudo volte a ser,
ser aquilo que não sei o que é
É que o que era já foi
não dá pra ser igual
igual não existe
não dá pra ser o que já foi

o que to querendo dizer
eu que não sei subentender
não sei subentender-me

é que o tempo passado
perfeito
é perdido.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Breve nota sobre o raro

Não dá pra eu escrever quando tô feliz. Não dá mesmo, tudo soa superficial, aparentemente suspeito... incompleto, já tentei, acredite. É que parece que quando peito rompe em angústia, eu preciso recompô-lo em algum lugar, e quando tá tudo bem... tá tudo bem, oras!
Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada, viu? Hoje tive um segundo de paz, achei esquisito, mas parecia que tava tudo no lugar. Olhei pro trigo e pro mato e tudo passou rápido de mais, parecia que não tinha fim, e acho que não tem mesmo. E a música ali, me falando que tudo é amor, amor, amor... e daí eu achei que era. E tive vontade de dividir com você, em forma de palavra escrita, porque felicidade é ainda mais difícil de explicar por meio da tagarelice. É sopro, quase invisível, e, olha, vai embora rapidinho. Ultimamente tá ainda mais raro, são as tais dores do crescimento. Dói a junta da perna, os braços e a alma, mas essa, hoje, pode respirar um pouquinho e foi pra lá de bonito, me lembrando do dia em que tive todos os sonhos a um passo de virarem realidade. "Felicidade não existe, o que exite na vida são momentos felizes"? Olha, o cara que disse isso sabe bastante das coisas. Me pergunto, se ele também sabe como é incrível quando esses milésimos de segundo acabam por acontecer. Acho que é esperar por eles que me faz querer continuar a buscar o que não sei o que é. Raro, e absolutamente sensacional.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Para um dos meus vários eus.

Você entendeu isso que eu tô falando? Olha só isso, olha essas linhas... Como é que esse cara conseguia escrever assim? Se eu quero dizer "papel", pra mim é isso e pronto. Vou no dicionário e procuro sinônimos, no máximo. Acho que é porque a minha vida é curta. Não de duração, entendeu? Mas de vivências. Olha bem pra mim. Agora olha esses livros, essas linhas, olha só isso... São coisas que nunca vivi e nem vou viver. Aqui estou falando com você, ou sozinha também, sei lá. Sei que até o vento se cansou de mim e foi ventar lá em outro canto. Diz a verdade, não dá uma vontade gigante de morrer e virar outro? Não dá vontade de escolher as linhas que se quer escrever nessa vida? Tudo parece tão fácil... tem gente que diz "ué, vai lá e vive!". Aí é que eu é pergunto... mas e o medo? E a canseira que dá só de existir e abrir o olho na  hora de levantar? E o chão gelado que faz os meus pés esconderem-se de novo na manta? E o resto do mundo, onde fica nesse "tudo é fácil se você quiser?". Uma ova que é! Por isso é que agora eu tô olhando pro relógio vendo que desperdicei mais um dia dessa minha vida que nem tem tanta graça assim. E quando foi que isso aconteceu, hein? Me diz porque eu tô doidinha pra saber. Autossabotagem, tá ai, você falou um troço que faz sentido. Vicia, isso aí, de se sabotar dia após dia. Mas como eu faço pra parar? Vai, me diz! Não lance as palavras e depois me deixe sozinha com elas. Fica mais um pouco, só consigo conversar com você. E comigo mesma, mas não gosto muito, porque sempre falo mais do que deveria. Às vezes eu fico revivendo momentos da vida que eu queria ter vivido, sabe? Das vidas, na verdade. São várias delas. Me diz como eu faço pra começar de novo, que eu quero ser polonesa e vender discos ali na esquina. Tudo bem, não precisa ser algo tão longe, ser uma pessoa que tem vontade de sair na rua pra ver o sol, já está de bom tamanho. Olha aqui, você pensa que é simples assim? Eu também achei que fosse, mas aí descobri que não adianta eu querer sair pra conhecer o mundo, se ligo a televisão só pra ouvir barulho, porque tenho medo de ficar sozinha em casa. Sempre amei o futuro e esqueci de concertar o presente, angustiada com vontade de voar, esqueci que não dá pra dar passo maior que a perna não. Tem que ser miudeza por miudeza. Aí eu conseguiria encarar esse abismo delicioso, que é o mundo além desse sofá sujo. Por isso não saí do lugar, viu? Por isso minha vida, se fosse filme, seria aqueles da Sofia Coppola. Não ri não, é sério! Aqueles que falam sobre vazio, tédio, e você termina de assistir, sabendo que faltou alguma coisa. Vou sair de mim sabendo que faltou alguma coisa. Coragem, talvez. Talvez um abrir de olhos, um corpo mais jeitoso, pra dançar melhor... uma aventura. A existência. Mas essa, já foi embora faz tempo.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Antes de dormir

Indo fechar a janela, que é para o vento frio da madrugada não me aborrecer.
Um homem, do outro lado da rua, vasculha o lixo alheio, equilibrando-se na bicicleta velha.
Uma menina come pão na sala da sobreloja oposta, com a rua de costas pra ela, que assiste televisão.
E assim, dos milhares de universos se fazem mais três. O meu, o dele, e o dela.
Entre nós a rua vazia, a noite friorenta e aquele vazio que atravessa a todos nós, todos os dias.
Nunca sentiremos um ao outro.
Nunca nos saberemos.

terça-feira, 4 de junho de 2013

medida certa

Para o reacionário, a revolução
Para o covarde, a rua
e para o medo, a nudez.
Para mim, tudo aquilo que falta
E para você também.
Para nós, o excesso daquilo que nunca vamos ter.
Para quem precisa de amor, gatinhos
um abraço
a flor
a poesia
covinhas e sorrisão.
Para o mesquinho, o dinheiro.
(Se é isso que quer, é só o que merece)
Para o chato, a bagunça
Para o amargo, a gargalhada.
Para quem quiser, todo o amor que houver nessa vida.
Para ser entendido, o apanhador,
Para conversar também.
Para quem sofre, uma boa noite de sono.
Para quem quer, qualquer coisa.
Para quem tem fome comida, diversão e arte! 
...
...
...
E assim segue tudo isso, tudo aquilo, aquilo outro também,
na (des)medida exata.

domingo, 28 de abril de 2013

A dois

Um mais um é igual a dois
porque dois é melhor que um
porque quando dois vira um
a gente perde a melhor parte do outro
e a nossa também.

A dois a gente se enlaça
se abraça
e se morde

A dois eu posso ser um
sendo um mecho no teu cabelo
te deixo brabo
e te amo

Dois é melhor que um
porque é bom dormir sozinho
sabendo que dá pra ligar assim, do nada
no meio da mabrugada
é que deu saudade do teu cheiro
e do teu peito colado no meu rosto
servindo de travesseiro

Dois é melhor que um
porque você 
não é metade da laranja
porque você me surpreende
porque sempre dá pra conhecer mais
e gostar mais
amar mais ainda

É que quando um quebra
outro um empresta o ombro
o corpo 
e a alma

É que se um quebra o outro um não quebra junto
dá pra ajudar a colar
até quebrar de novo

Você não é o que me falta
e sim aquilo que acrescenta
porque quando um mais um é dois
um é um inteiro
e te quero inteiro mesmo, te amo inteiro
e não pela metade

terça-feira, 16 de abril de 2013

Lembrete:

E lá está ela procurando pessoas pra preencher o buraco dentro de si
Não percebe? Não percebe mesmo? Nada vai tapar esse furo, esse abismo de blá blá blá que ninguém aguenta mais ouvir. O buraco é teu. O buraco é você inteira.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Para aquilo que não tem nome.

Quando você nasceu eu tinha dez anos. Assim, dez anos, as duas mãos completas, que nem você tem agora.Nem sei se sabia o que era amar direito. Achava que sabia até te olhar pela primeira vez. Entendi porque é que minha amiguinha da escola achava tão legal ter um irmão, e fiquei me martirizando por achar toda aquela situação uma porcaria, até então. Você era mais vermelho do que um morango bem docinho, e nem conseguia abrir o olho miudinho. Logo que te peguei no colo, assim, com jeito de gordinha desajeitada, você chorou, e eu pensei que estava me culpando por não ter sido muito receptiva com você quando ainda estava na barriga da mãe. Aí depois foi se acostumando ao meu jeito de não saber segurar um bebê, e eu lembro que a mamãe tava muito bonita na cama do hospital. Fiquei com medo de te derrubar e devolvi você pra ela.
Odeio essa história de meio-irmão. Acho um nome feio e muito infeliz, porque, afinal, você não é cortado pela metade, certo? Você é meu irmão por inteiro, assim, todinho, com pintinhas no rosto, olhos verdes, cabelo espetado, barriguinha de verme e tudo mais.
Depois moramos por um tempo juntos, acho que por um mês só. Acho, na verdade eu não me lembro direito. Mas lembro de você, correndo com o andador pela casa, me olhando com olhos cada vez mais grandes, brilhosos e pidonhos  Não sabia lidar direito com um nenê, naquela época... E acho que ainda não sei lidar direito com você agora, às vezes sou chata demais, me desculpe. Às vezes preciso ser, viu? Você anda muito folgadinho, e eu ando irritadiça, você sabe. Na verdade não, né? Não tem culpa disso. Aliás, se alguém nessa história não tem culpa de nada, só pode ser você.
É que toda vez que eu vejo uma foto sua eu choro. É sério, eu choro mesmo, que nem eu tô chorando agora. É que da saudade do que a gente não viveu junto. É que dá vontade de ter estado com você no seu primeiro dia na escola nova, de ter visto o primeiro dentinho nascer e de ter sido sua cúmplice nas horas que você teve medo. Fui uma irmã mais velha com pouquíssimos méritos e você, ainda assim, me ama. Como pode vir me abraçar tão gostoso toda vez que eu abro a porta da casa de vocês? Porque é assim? Eu se fosse você estaria muito brabo com uma irmã  que fez a trouxinha de roupas e foi embora quando eu mais precisava. Mas você me ama, me ama e quer minha opinião, e quer deitar no sofá comigo, saber o que eu tô assistindo, e me contar do livro novo que leu. E nessa hora meu coração se esfacela e eu não consigo me concentrar em mais nada, me perdendo em devaneios e nostalgias penso em como pode existir uma criatura perfeita e tão pequena, assim, bem desse jeito que você é, com um corpinho magro e frágil pedindo uma proteção que nunca dei. E parece que esse corpinho não desiste e me quer por perto, mas continuo não atendendo às expectativas e vou embora. Fecho a porta e vou mesmo. Agora não dói mais tanto pra você, que já viveu a pior parte de ser criança, agora que descobriu o computador e se virou sem a minha ajuda. É justo, eu não te culpo e ainda vejo o mesmo amor que sempre sentiu, quando me olha nos olhos. É que, olha, pra mim, cada vez dói mais um pouco. Tá mais alto, engordou, foi bem na prova. Mais coisas que perdi. Pois é, mais uma foto de mais um aniversário ao qual não fui. E as ausências se multiplicam e eu choro. Tenho medo menino, medo do teu futuro e medo de essa coisa de não saber mais viver sem você me enlouquecer qualquer dia desses.
Desculpe não estar aí em mais um dia da tua rotina, da tua vida que tá cada vez mais tranquila e, por isso, até tentofazer uma reza desajeitada, aquela de quem nem sabe pra quem tá rezando, e agradecer. Corre, porque agora você gosta de jogar bola. Faz a lição de casa, pra depois você poder jogar videogame. Vai ler um livro que você tanto gosta, que eu espero, aqui do outro lado, que um dia você possa me perdoar pela irmã que eu não sou e possa saber que não existe coisa mais forte nesse mundo do que aquilo que você me faz sentir quando me espera na porta do apartamento. É sério. Obrigada, pentelinho, você é a pessoa com quem mais aprendi nessa vida que eu levo, de quem não sabe pra onde vai.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Para o Apanhador Só

Cheguei, deitei e fiquei aqui, um tempão
E nesse ficar, fiquei pensando
E nesse pensar, passou

A água evaporou na panela
A louça não se lava sozinha
O pó não se retira dos cantos
Da casa

Vazia.

Nesse pensar, o sol se pôs através da janela
Nesse ficar pensando, pensei

Pensei nas crianças passando
Correndo
Passando da linha, do limite
Do abismo

E pensei em você
Parado, apanhador
Parado no centeio
Protegendo a molecada, para que não caiam

Assim

Devagar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Para as coisas belas e tristes.

O sorriso, a partida. Mal sabíamos uma da outra, apenas quase estranhas com simpatia e um pouco de mistério. Mas agora penso em você quase todos os dias, e te procuro nas imagens, nos recados, nas lembranças. Tenho medo de não te achar mais em lugar nenhum, medo de te esquecerem.
Sei que não vão. Tuas vibrações foram suficientes para deixar uma legião de pessoas apaixonadas por cada detalhe seu, por cada instante vivido.
Sei que também não vou, mas, se você estivesse aqui, se ainda sorrindo, se ainda dançando, talvez não teria o espaço que tem no meu peito agora. Não precisaria, não é mesmo?
Sempre invejei essa tua beleza, como era bela. Como é Bela! E como teve essa coisa louca de querer viver com o riso frouxo,o cabelo solto, e com essa coisa que sempre faltou na minha testa franzida, na cara amarrada, nesse jeito carrancudo de beijar santo o tempo todo e nesse sufoco que parece que me impede de ser feliz. É tão fácil me ver pequena diante dessa tua leveza até na hora mais triste, até naquela foto enorme que vimos na hora de dizer adeus. Menina, menina, não sei da saudade daqueles que te tem como tudo na vida, e só de pensar nela o meu peito dói uma dor doída que me dá vontade de chorar. Só quero que saibas que eu me lembro, e vou lembrar por um bom tempo da minha vida. Talvez lembre pra sempre e sempre agradecerei pela lição que me ensinou, sem nem mesmo saber que o fez.

Lá fora, tô indo abraçar o sol. É o mínimo que posso fazer por você.

domingo, 25 de novembro de 2012

Sentimento sem nome.

Quantas sensações, impressões, quantos sentidos cabem dentro de um corpo como o meu? Quantos ele aguentar? Mas será mesmo?
É que ultimamente tenho sentido que ao menor movimento indevido meu corpo vai esfacelar, distribuindo-se por cada canto desta cidade escaldante. Meu coração não aguenta mais. Nem meus pulmões, ou mesmo meu cérebro. Estamos todos muito cansados.
Cansados e com essa sensação de impotência vendo tanta vida passando diante de nós. Esse clima de adeus e despedida constantes me fazem pensar que o mundo vai mesmo acabar. Tomara que acabe.
Acho que gostaria que meu corpo comportasse muito mais do que pode. Queria mais de tudo, mas, ao mesmo tempo, preguiça e medo não me deixam sair da cama. Vivo o sentimento sem nome mais estranho que já vivi em toda a minha vida. É a angustia constante que o ano mais pesado de todos deixou como lembrança. Toda essa vida que não me deixa esquecer que ela passa rápido demais, e, por mais que tenha gente que adore gritar pelos ares que aproveita como ninguém, sempre deixamos alguma coisa escapar. Ou alguém. Ou algum lugar. Ou todas essas coisas juntas, e quando viu, já foi. Se pudesse, voltaria no tempo, ou o faria parar, acho que estou sempre por aí dizendo esse tipo de coisa, mas é um sentimento que realmente me consome e me engole, esse de querer controlar o tempo ao meu redor.
Achava que a angústia estava nos outros, mas ela esteve sempre, o tempo todo, dentro de mim. Não sei qual das duas coisas é pior. Não sei mesmo.
A vida, o universo, seja lá o que essa coisa imensa em que estamos todos inseridos for, ela sempre seguiu este fluxo, deste modo, e eu estou aqui só de passagem, mas parece que só notei isso agora. Agora percebi que as pessoas se vão, os sentimentos também, e os momentos praticamente nem estiveram aqui. Não foi tudo que mudou, fui tudo aqui dentro que sim, e agora parece que meu corpo está comportando mais do que consegue.
Gostaria de ter percebido antes.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Tempo tempo tempo tempo tempo tempo

Hoje é dia dois de outubro. Percebi que posso contar nos dedos as vezes em que olhei o calendário, neste ano. Agosto demorou dois séculos inteirinhos pra passar, e do mês do desgosto pulou-se direto pra dezembro. Setembro fugiu, saiu correndo. O que fiz com ele? Assustei-o com o meu descaso? Queria que ficasse um pouco mais...
No calendário não reparo, mas no relógio digital que fica logo ao lado pouso meu olhar todos os dias, o tempo todo. Relógio, aparelhinho que me controla como nada mais consegue, fruto de todas as minhas angústias e de todo o meu desespero. Não para. Pressa pressa pressa pressa pressa!
Quando foi que cedemos? Quando foi que caímos direitinho na armadilha de não-sei-quem e colocamos esse tic-tac incessante em nossas vidas? Porque meu dia não pode ter quantas horas me forem necessárias para fazê-lo completo?
Neste ano que já acaba vejo tanta gente indo embora... Vou embora de mim mesma e vão embora de mim. Vou embora dos outros também, mas dá uma vontadezinha de ficar...
Uns que vão para longe, sei que voltam sempre, e que me chamam, caso a saudade aperte o peito. Outros vão para a esquina, mas para estes meu olhar e sentimento nunca mais serão os mesmos. Partidas e partidas e fica sempre o arrependimento de poder ter feito isso ou aquilo diferente. Talvez a falta de tempo não tenha me deixado pensar um pouco mais. Só um pouco.
Queria quebrar o relógio, para fazer os segundos cristalizarem-se nessa madrugada.
Paralisa tempo, paralisa até que o sono volte, até que a ferida feche, até que eu me faça forte. Paralisa, porque amanhã você é cruel e não me deixa viver o dia bonito lá fora. Paralisa, porque se não amanhã perco a hora, e é dia de acordar cedo. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Fragilidade. Morte.


Em um minuto está lá, e no outro...morte.
Deixamos as pessoas irem embora tendo plena certeza de que irão voltar. Partimos confiantes do nosso retorno. Morte.
É o carro que capota, o coração que fraqueja, a pele que queima, as células que se reproduzem rápido demais. Morte.
É o adeus que não damos, é a última briga. A última palavra dita. E a não dita.
Morte.
Pensar na fragilidade de nossos corpos e almas é desolador. Pensar em como tratamos isso como se fosse nada, é o fim do mundo.
Quem me garante que todos aqueles pra quem disse “até amanhã” estarão lá?
Porque acho que esta noite dormirei tranquila, sem qualquer notícia devastadora? Morte.
Cada minuto é um feito, cada respiração é o maior milagre de todos. E não adianta dizer que é por isso que devemos viver intensamente e aproveitar o dia. Ninguém faz isso. Todos acham que existem mais dias por vir.
Antes aqui, agora lembrança. Morte.
E este meu impulso sádico me faz ter insônia ás 01:14 da manhã, pensando na dor de perder todos aqueles ao meu redor. Pode estar acontecendo agora. O choro antecipado só veio mesmo adiantar o que um dia acontecerá a todos. Morte.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Conversa de botas batidas.

"Diz, quem é maior que o amor? 
 Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora 
 Vem, vamos além 
 Vão dizer, que a vida é passageira 
 Sem notar que a nossa estrela vai cair" 


 Talvez agora eu consiga escrever algo sobre você, pois nem parece que já faz algumas semanas que não habitamos mais o mesmo mundo. Eu do lado de cá, tão imersa em problemas insignificantes, na rotina sufocante, nos medos que estagnam, fico tão longe do universo do lado de lá, que nem parece que você foi embora. Não dá pra imaginar que teu quarto agora se fez vazio, e que os bonequinhos, estátuas, enfeites de papai noel serão distribuídos para os membros da família. É mentira, quando eu voltar pra minha vida antiga, terão panquecas esperando por mim,e você vai me irritar com aquele teu jeito de sempre querer oferecer aquilo que tem (e que não tem também) na tua casa. Claro que você ainda estará lá, esperando a gente chegar pra mais um almoço de domingo. Sua cama não vai estar vazia. Não pode. Não pode porque havíamos combinado de fazer tua festa de aniversário no salão do prédio esse ano. Essa promessa não pode ser quebrada, temos que contar todos os presentes que você ganhou, como no fim da festa de uma criança. Como é que a vida continua depois de você? E aqueles que precisavam da tua oração pra sarar dor de cabeça? E os que tinham o prazer de rir dos teus palavrões? E tua neta, como fica ela que poderia ter te dito tanta coisa que tá agora presa na garganta? Como ficam essas palavras que vão morrer comigo e que nunca vão chegar aos teus ouvidos, que sempre ouviram tão bem o problema dos outros? E quem vai deixar a família inteira extremamente sem paciência com melodramas? Com quem eu vou brigar porque comeu um pudim que não deveria? Pra quem a música da barata vai tocar nas festas de natal? Teu nome cheio de significado e importância soa agora vazio pelo corredor do quintal, porque você não vai atender ao nosso chamado. Não subirei mais a escada da tua casa, nem dormirei no sofá sem querer. E disseram que a última roupa que você usou foi você mesma quem escolheu. Ainda bem. Você ia ficar puta da vida se fosse ao contrário. Ficam o vazio da saudade e a música que fizeram pra ti, ecoando incansavelmente na minha alma dolorida e triste.

 "O Natalina, dê um sorriso aí! Cante e encante que hoje o dia é todo seu, vem aqui dançar com a gente, que o prazer é todo meu".
 O prazer é todo meu, vó.
 Obrigada por tudo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Deixar partir

Talvez tudo isso seja culpa minha. Indiferença e desespero tentam ocupar o mesmo espaço dentro de mim, mas acho que ja percebi que não dá pra ser duas ao mesmo tempo. A inconstância de humor me deixa cansada, da alegria para a raiva em questão de segundos. E a raiva acaba comigo. O desespero também. Me corroem tanto que, mesmo que ocupassem a menor parte dos meus pensamentos, seriam o suficiente pra eu esquecer os tão preciosos momentos de calmaria. Nunca vou me acostumar com as pessoas indo embora. Talvez possa dizer (provavelmente o farei) algo contrário a isso algum dia, mas aqui está escrita a verdade: eu nunca vou me acostumar. Não é nem por pensar que elas vão fazer falta pra mim. Não tô desmerecendo ninguém não, mas é que de vez em quando passa o momento, passa mesmo. E nisso eu acredito de verdade. Acredito que algumas pessoas tem prazo de validade na nossa vida, e não são menos especiais por isso. Mas algo em mim não quer deixar os outros irem embora. E isso é o que mais me enlouquece das mil coisas que me enlouquecem dentro de mim. É um apego mesquinho de saber que não vai ser a mesma coisa, saber que já foi, e mesmo assim não querer ver ir embora. E chorar, muito. E não conseguir fazer mais nada o dia inteiro. Essa sou eu. E lembrar de uma pessoa que está indo embora, faz lembrar de outra, e outra... todas estão indo embora de uma vez. Lógico que eu penso que se tem mais de duas pessoas indo, o problema sou eu. Certamente sou. Mas se deixei ir, será que quis tanto manter? Porque então luto agora e me torturo com lembranças e pensamentos? Porque não as deixo partir e fico com o que foi o melhor de nós? Será que eles TEM mesmo que ir embora? Não dá pra ir junto? Não dá pra ficarem? E o que me faz ficar, deixando-os ir e chorando as pitangas? Lá vem a auto-análise me dizendo pra mudar. Porque é que não mudo, então? Quantos terão de partir para eu aprender? Mas será que devo aprender alguma coisa? Seria falta de esforço meu, de interesse deles, de vontade em nós? Será que devo então começar a acreditar naquilo que sempre repugnei, aquilo que diz que quando as pessoas mudam mudam de vez e esquecem o que ficou pra trás? Eu sou assim também? Dá pra voltar atrás? Eu queria... mas, será que queria mesmo? O que me falta, agora que eles se foram? Porque tenho essa eterna mania de querer colecionar tudo, inclusive aqueles que amo? Talvez possa, pra sempre, amá-los de longe. Talvez tenha os magoado. Certamente que sim. Costumo fazer isso. Uma mágoa velada, daquelas que a gente finge que não fez e a pessoa finge que não foi magoada. Daquelas que meu orgulho do tamanho de marte não permite corrigir. É por isso que todos se vão. Não os culpo. Eu provavelmente iria embora também. Mas será que é tudo minha culpa? É possível culpar uma única pessoa pela partida? Não dá mesmo pra voltar no tempo? Eu gostaria... Como um filme que vemos de novo e percebemos novos detalhes, talvez eles tivessem ficado se eu tivesse assistido minha vida inteira uma segunda vez. Ainda dá tempo? Será que quero esse tempo mesmo? Como queria que eles tivessem o trabalho de entrar nesse blog e ler esse texto, para virem falar comigo e tudo voltar ao normal. Maldita covardia, essa minha. É claro que talvez seja tudo um drama dessa dramática assumida que eu sou, e amanhã alguém me ligue, um outro alguém resolva me contar a sua vida, algum outro me responda a mensagem. Talvez só esteja todo mundo muito ocupado. Talvez eu esteja muito ocupada também. Provavelmente sou só eu aqui me importando demais com algo que amanhã se resolverá, e parecerá que esse sentimento nunca esteve aqui. Talvez esse texto seja perda de tempo de uma menina exagerada que não sabe lidar com os próprios sentimentos. É o que a maioria pensa de mim mesmo, mas tá certo, eu não ligo. Ligo sim, mas agora não tô ligando não. É, certamente é algo que amanhã vou ler, e vou pensar "como eu sou besta". Mas é que agora tá doendo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Little man blue

A típica volta para casa. Sentada no metrô, os fones de ouvido poupando-me dos ruídos dos trilhos. Às vezes gosto deles, às vezes é preciso desligá-los para deixar a mente flutuar. Para ajudar, a voz mais bonita do mundo cantando para mim. Minha little girl blue.
Olho ao redor, reparo os rostos, um jovem senta ao meu lado. 16 anos, 17? Posso tentar adivinhar essa idade porque ele me chamou a atenção, e chamou a atenção por ter uma agenda exatamente igual a minha, aquela que carrego para todo o canto e que carrega todos os meus sonhos e devaneios. Discrição e indiferença nunca foram meu forte, e um menino de 16 anos com uma agenda do Charles Chaplin tinha que ser especial. Lá dentro tinham sonhos, iguais aos meus de algum tempo atrás, memórias, um diário. Ele quer passar no vestibular, escreve em sua agenda o que fez no seu dia, resolve exercícios de matemática. Me emociona.
Não sei nem se quero achar explicação para esse sentimento que me invadiu. Talvez nem haja alguma explicação. Talvez seja só a vida, me mostrando como ela pode ser bonita e cheia de poesia e garotos cheios de sonhos, quando ela quer.
Saio do trem, a música acaba.
Ganhei o meu dia.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Procura-se


Procura-se a junção de passado, presente e futuro, mas só do melhor aspecto de cada um. Procura-se uma alma mais estabilizada, menos angustiada pelas pequenezas do ser que habita. Procura-se sossego mental por pelo menos meia hora.
Procura-se um coração que permita melhor aproveitamento do tempo com aqueles que ama. Que seja seguro, sua batida firme, serena e que se saiba muito bem quem merece algum esforço seu. Que saiba quem é que traz alegria.
Procura-se um lugar que possa ser chamado de "meu" e que seja completo, aconchegante, abarrotado de lembranças doces, expectativas, discos de vinil e saudade. Que nele possam caber aqueles pra quem se diz "eu te amo".
Procura-se o tão falado "crescimento espiritual".
Procura-se a coragem e que a covardia se exploda em algum lugar bem longe. Procura-se o altruísmo absoluto, a segurança e o querer bem.
Procura-se uma solidão bem vinda, o gostar sem pedir nada em troca, o orgulho e o carinho que saem de dentro e explodem pelo mundo.
Procuram-se vozes doces de consolo imediato, procuram-se aqueles que nos deixam saudade depois de segundos de sua partida. Os quero agora. Os quero o tempo todo. Quero pra sempre. Sempre.
Procura-se a melancolia que faz crescer e a alegria que faz explodir. Procura-se tempo de sobra. Procura-se todo o tempo do mundo.
Procura-se o desapego aos bens materiais. Procura-se a alegria por existir apenas. Procura-se o existir apenas.
Procura-se o não se machucar, o não machucar ninguém.

Procuro a mim mesma.