Quando você nasceu eu tinha dez anos. Assim, dez anos, as duas mãos completas, que nem você tem agora.Nem sei se sabia o que era amar direito. Achava que sabia até te olhar pela primeira vez. Entendi porque é que minha amiguinha da escola achava tão legal ter um irmão, e fiquei me martirizando por achar toda aquela situação uma porcaria, até então. Você era mais vermelho do que um morango bem docinho, e nem conseguia abrir o olho miudinho. Logo que te peguei no colo, assim, com jeito de gordinha desajeitada, você chorou, e eu pensei que estava me culpando por não ter sido muito receptiva com você quando ainda estava na barriga da mãe. Aí depois foi se acostumando ao meu jeito de não saber segurar um bebê, e eu lembro que a mamãe tava muito bonita na cama do hospital. Fiquei com medo de te derrubar e devolvi você pra ela.
Odeio essa história de meio-irmão. Acho um nome feio e muito infeliz, porque, afinal, você não é cortado pela metade, certo? Você é meu irmão por inteiro, assim, todinho, com pintinhas no rosto, olhos verdes, cabelo espetado, barriguinha de verme e tudo mais.
Depois moramos por um tempo juntos, acho que por um mês só. Acho, na verdade eu não me lembro direito. Mas lembro de você, correndo com o andador pela casa, me olhando com olhos cada vez mais grandes, brilhosos e pidonhos Não sabia lidar direito com um nenê, naquela época... E acho que ainda não sei lidar direito com você agora, às vezes sou chata demais, me desculpe. Às vezes preciso ser, viu? Você anda muito folgadinho, e eu ando irritadiça, você sabe. Na verdade não, né? Não tem culpa disso. Aliás, se alguém nessa história não tem culpa de nada, só pode ser você.
É que toda vez que eu vejo uma foto sua eu choro. É sério, eu choro mesmo, que nem eu tô chorando agora. É que da saudade do que a gente não viveu junto. É que dá vontade de ter estado com você no seu primeiro dia na escola nova, de ter visto o primeiro dentinho nascer e de ter sido sua cúmplice nas horas que você teve medo. Fui uma irmã mais velha com pouquíssimos méritos e você, ainda assim, me ama. Como pode vir me abraçar tão gostoso toda vez que eu abro a porta da casa de vocês? Porque é assim? Eu se fosse você estaria muito brabo com uma irmã que fez a trouxinha de roupas e foi embora quando eu mais precisava. Mas você me ama, me ama e quer minha opinião, e quer deitar no sofá comigo, saber o que eu tô assistindo, e me contar do livro novo que leu. E nessa hora meu coração se esfacela e eu não consigo me concentrar em mais nada, me perdendo em devaneios e nostalgias penso em como pode existir uma criatura perfeita e tão pequena, assim, bem desse jeito que você é, com um corpinho magro e frágil pedindo uma proteção que nunca dei. E parece que esse corpinho não desiste e me quer por perto, mas continuo não atendendo às expectativas e vou embora. Fecho a porta e vou mesmo. Agora não dói mais tanto pra você, que já viveu a pior parte de ser criança, agora que descobriu o computador e se virou sem a minha ajuda. É justo, eu não te culpo e ainda vejo o mesmo amor que sempre sentiu, quando me olha nos olhos. É que, olha, pra mim, cada vez dói mais um pouco. Tá mais alto, engordou, foi bem na prova. Mais coisas que perdi. Pois é, mais uma foto de mais um aniversário ao qual não fui. E as ausências se multiplicam e eu choro. Tenho medo menino, medo do teu futuro e medo de essa coisa de não saber mais viver sem você me enlouquecer qualquer dia desses.
Desculpe não estar aí em mais um dia da tua rotina, da tua vida que tá cada vez mais tranquila e, por isso, até tentofazer uma reza desajeitada, aquela de quem nem sabe pra quem tá rezando, e agradecer. Corre, porque agora você gosta de jogar bola. Faz a lição de casa, pra depois você poder jogar videogame. Vai ler um livro que você tanto gosta, que eu espero, aqui do outro lado, que um dia você possa me perdoar pela irmã que eu não sou e possa saber que não existe coisa mais forte nesse mundo do que aquilo que você me faz sentir quando me espera na porta do apartamento. É sério. Obrigada, pentelinho, você é a pessoa com quem mais aprendi nessa vida que eu levo, de quem não sabe pra onde vai.
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terça-feira, 9 de abril de 2013
Para aquilo que não tem nome.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Para Matheus.
Tem sete anos. É pequeno. Pensa que é um Jedi.
Clichê é falar do quanto as crianças são especiais e curiosas, e eu não vou nem entrar no mérito dessa discussão porque, nem se eu tentasse, conseguiria passar para um texto o quanto ESSA criança é especial e curiosa. Uma, porque as minhas habilidades como "escritora" ainda são um tanto restritas, e outra porque qualquer palavra, por mais bem elaborada, não explicaria o que é o Matheus, de maneira apropriada.
Meu irmão não é o mais inteligente, nem o mais bonito(apesar de chegar bem perto disso), ou o mais sensível, ou o mais engraçado garoto do mundo. Talvez possa dizer que ele é o mais especial, e com certeza posso dizer que ele é o mais amado, e o mais amável.
Correndo banguelo pela casa, com seu sabre de luz imaginário e vociferando palavras do seu prório vocabulário, olhando no relógio de tempo em tempo, pra não perder o horário do seu desenho favorito. Se eu pedir um beijinho pra ele, sei que para na hora o que estiver fazendo, vai chegar de mancinho e beijar meu ombro aquele beijo estaldo e gelado de sorvete de morango.
Não acho necessário me prolongar muito nesse texto, que nunca vai sair do jeito que eu gostaria e que nem sei se vou ter coragem de mostrar pra ele um dia. É mais um desabafo, uma explosão de amor e saudade antecipada, é mais um marejar de olhos que cresceu, e um suspiro que se prolongou, um pensamento que foi além do pensamento.
Aqui, Matheus, te deixo minhas desculpas sinceras, por não poder estar presente no seu dia-a-dia, pelos momentos incríveis que eu vou perder, e por não acompanhar o seu crescimento e a sua evolução como esse ser humano extraordinário que você é. Desculpe também se ás vezes eu tenho atitudes de pessoa crescida e chata, e não entendo alguma brincadeira sua.
Te deixo meu agradecimento, por me ensinar aquelas cosias que só garotinhos de sete anos podem ensinar pra gente. Obrigada também pelo amor incondicional e pela inocência, que como todo o meu coração eu desejo que você concerve.
Tenha muita força, e saiba que o mundo pode sim ser feio e cruel, mas ele é muito mais beleza, Matheus, e eu espero que você saiba enxergar isso.
Sei que não posso te proteger de todas as pessoas e situações ruins que você vai enfrentar, mas eu o faria, se pudesse.
Tem grandes olhos verdes. É magrelo. Está atualmente banguelo e queimado de sol. Eu o amo muito mais do que um dia eu pensei amar alguém.
Clichê é falar do quanto as crianças são especiais e curiosas, e eu não vou nem entrar no mérito dessa discussão porque, nem se eu tentasse, conseguiria passar para um texto o quanto ESSA criança é especial e curiosa. Uma, porque as minhas habilidades como "escritora" ainda são um tanto restritas, e outra porque qualquer palavra, por mais bem elaborada, não explicaria o que é o Matheus, de maneira apropriada.
Meu irmão não é o mais inteligente, nem o mais bonito(apesar de chegar bem perto disso), ou o mais sensível, ou o mais engraçado garoto do mundo. Talvez possa dizer que ele é o mais especial, e com certeza posso dizer que ele é o mais amado, e o mais amável.
Correndo banguelo pela casa, com seu sabre de luz imaginário e vociferando palavras do seu prório vocabulário, olhando no relógio de tempo em tempo, pra não perder o horário do seu desenho favorito. Se eu pedir um beijinho pra ele, sei que para na hora o que estiver fazendo, vai chegar de mancinho e beijar meu ombro aquele beijo estaldo e gelado de sorvete de morango.
Não acho necessário me prolongar muito nesse texto, que nunca vai sair do jeito que eu gostaria e que nem sei se vou ter coragem de mostrar pra ele um dia. É mais um desabafo, uma explosão de amor e saudade antecipada, é mais um marejar de olhos que cresceu, e um suspiro que se prolongou, um pensamento que foi além do pensamento.
Aqui, Matheus, te deixo minhas desculpas sinceras, por não poder estar presente no seu dia-a-dia, pelos momentos incríveis que eu vou perder, e por não acompanhar o seu crescimento e a sua evolução como esse ser humano extraordinário que você é. Desculpe também se ás vezes eu tenho atitudes de pessoa crescida e chata, e não entendo alguma brincadeira sua.
Te deixo meu agradecimento, por me ensinar aquelas cosias que só garotinhos de sete anos podem ensinar pra gente. Obrigada também pelo amor incondicional e pela inocência, que como todo o meu coração eu desejo que você concerve.
Tenha muita força, e saiba que o mundo pode sim ser feio e cruel, mas ele é muito mais beleza, Matheus, e eu espero que você saiba enxergar isso.
Sei que não posso te proteger de todas as pessoas e situações ruins que você vai enfrentar, mas eu o faria, se pudesse.
Tem grandes olhos verdes. É magrelo. Está atualmente banguelo e queimado de sol. Eu o amo muito mais do que um dia eu pensei amar alguém.
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